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Chan Ieng Hin (Coordenador de Artes Visuais do Instituto Cultural do Governo da R.A.E. de Macau)

  O público de Macau está a tornar-se cada vez mais familiarizado com a pungente pintura e poesia dos artistas contemporâneos da China continental. Shi Hu é um desses artistas, o qual fez de Macau a sua casa.

  Numa era em que o realismo predomina, as pinturas a tinta sobre papel de Shi Hu encantam com o seu estilo abstracto avant-garde, valendo-lhe uma influente reputação no seu país natal e nos círculos internacionais. Shi (“rocha”) Hu (“tigre”) é tão liberto de convenções como o seu nome sugere e apresenta o seu trabalho através de um vocabulário visual e de uma imagética igualmente não convencionais. A firmeza e a coragem do seu trabalho revela os elementos do seu carisma oriental assim como a vitalidade do seu estilo individual. É um perito na utilização do traço e acredita ser esta a essência da pintura chinesa. A simplicidade dos traços e a riqueza das pinceladas proporcionam-lhe uma linguagem visual ricamente expressiva, que combina a profundidade das técnicas tradicionais com um inegável encanto artístico. As cores fortes que utiliza derivam das pinturas chinesas em madeira nianhua (pinturas do Ano Novo), tornando o seu trabalho diferente da arte contemporânea ocidental, emprestandolhes um aspecto indiscutivelmente chinês. Mais importante ainda, todos os aspectos do seu trabalho, da técnica ao conteúdo, estão mergulhados em cultura. As pinturas de Shi Hu são normalmente categorizadas como modernismo oriental, embora, de facto, o pintor seja um verdadeiro e fiel defensor da cultura tradicional chinesa.

  Shi Hu não é uma pessoa sociável e, na verdade, é raramente visto em reuniões de carácter social. Ao contrário, despende as suas energias nas suas explorações da cultura chinesa. A sua dedicação e perseverança na procura das origens da cultura chinesa pode dizerse que se encontra no limiar da obsessão. Respeita as origens da tradição e acredita que o chinês clássico é o fulcro da cultura chinesa ortodoxa. Escreve poesia em chinês clássico, por forma a que a forma clássica possa penetrar o pensamento artístico do povo chinês; acredita que é apenas através deste estilo linguístico que a singularidade da língua e cultura chinesas pode notabilizar-se. A sua insinuação de que “cada caracter é um pensamento” tem gerado bastante controvérsia nos círculos da poesia chinesa. Nesta era de globalização, Shi Hu é bastante afectado pela tendência da adoração cega pela cultura ocidental. Como muito outros literatos chineses, sente que tem a responsabilidade de ajudar a rejuvenescer a cultura clássica chinesa, acreditando que tal “responsabilidade repousa também no mais comum dos mortais.”

  Nesta exposição, mostraremos algumas das obras mais recentes de Shi Hu: 60 pinturas a tinta-da-china e 52 pinturas em porcelana. Estas obras podem dividir-se em três categorias:

  (1) 26 pinturas a tinta-da-china, executadas nos últimos anos, a maior parte da imagem feminina. Estas pinturas envolvem o uso da cor, o que as distingue do seu trabalho anterior, em que apenas usou tinta preta e linhas como meio de expressão. A cor da tinta cria uma textura rica, característica das suas últimas criações.

  (2) 52 pinturas em porcelana, executadas em Jingdezhen (cidade conhecida pela sua porcelana), que são consideradas estarem entre as suas melhores obras. Shi Hu não fez quaisquer esboços antes de pintar estas peças, e assim, estas apresentam a simplicidade, a naturalidade, a candura e a espontaneidade da criação improvisada. Estas obras incluem algumas pinturas a azul e branco coloridas, assim como algumas pinturas em porcelana azul vidrada.

  (3) As restantes 23 peças, criadas no corrente ano, representam uma série de figuras e temas muito familiares ao artista: trabalhadores, camponeses, soldados e os jovens da Revolução Cultural (massa de jovens da cidade que foram enviados para zonas rurais para serem “re-educados” ao trabalharem com camponeses). Estas obras revelam as reflexões do artista sobre a posição da cultura tradicional chinesa no mundo moderno. Transpondo as suas reflexões para uma linguagem contemporânea, Shi Hu tentou recuperar as sensibilidades morais desse tumultuoso período.

  O título desta exposição é “O Pássaro Místico”, o qual foi retirado dum poema do artista, mas é também a imagem orientadora do que pensamos ser a essência desta exposição. Ao mesmo tempo, Shi Hu usou a imagem do “regresso a casa” do pássaro para expressar o seu endividamento ao público de Macau. Gostaria de expressar os meus sinceros agradecimentos a Shi Hu por ter concordado em fazer da Galeria Tap Seac a primeira paragem desta exposição itinerante, dando a honra aos residentes de Macau de serem os primeiros a ver estas obras publicamente. Desejo também que o público possa, ao ver as suas mais recentes criações, alcançar uma compreensão mais profunda da abordagem, objectivos e forma de pensar do artista. Que esta oportunidade possa, sucessivamente, desencadear mais explorações em profundidade da cultura chinesa, e – nesta era dominada pela proeminência da arte ocidental – uma calma e ponderada avaliação do legado da cultura artística chinesa e dos caminhos possíveis em direcção a uma nova criatividade.