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Sinete de Bambu ofertado a Zhang Daqian pelos
artistas de Macau, Li Ruizu, Xu Yunzhai, Lin Jin.
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Zhang Daqian (Chang Tach’ien) (1899-1983) foi um
dos grandes mestres na história das artes visuais contemporâneas da
China, que se dedicou toda vida à sistematização, à descoberta, à
reforma e ao desenvolvimento das artes pictóricas tradicionais.
Considerando-se um mensageiro cultural, percorreu muitos países da
América e da Europa e divulgando a cultura e as artes do seu país, o
que lhe granjeou amplo elogio e apreço do público. Em 1957, a
Associação Mundial de Belas Artes de Nova Iorque, atribuiu-lhe o
título honorário de “O Melhor Pintor Contemporâneo do Mundo”. Com um
talento versátil, Zhang Daqian não tem paralelo na poesia, caligrafia,
pintura, gravação de carimbos e expressão artística. Nas palavras de
Xu Beihong, Zhang Daqian foi “o artista mais talentoso dos últimos
quinhentos anos.”
Zhang Daqian dedicou grande parte da sua vida à
investigação minuciosa da teoria da pintura chinesa. Verdadeiro
herdeiro da essência da cultura milenar chinesa, absorveu, também, as
bases da arte moderna mundial e, ao fazê-lo, desenvolveu um novo
domínio com a sua pintura, caligrafia e concepção artística. O
levantamento da sua produção artística permite dividir o
desenvolvimento do seu estilo em três períodos: o primeiro período,
pré-Dunhuang, do princípio dos anos vinte ao fim dos anos trinta,
durante o qual foi aluno de dois famosos calígrafos e pintores, Zeng
Xi e Li Rui Qing. Neste período, imitou os estilos elegantes dos
“Quatro Monges Budistas” (Shi Tao, Zhu Da, Shi Xi, Jian Jiang), da
dinastia Qing, Qing Teng e Bui Yang, e, concorrentemente, os estilos
de “quatro mestres da Escola Wu (Sheng Zhou, Wen Zheng Ming, Tang Yin
e Qiu Ying)”. Mais tarde também adoptou os estilos graciosos e
delicados da Escola Fanyuan na sua pintura de paisagens, usando as
cores azul e verde em larga escala. Zhang Daqian aprendeu com “os
quatro mestres (Huang Gong Wang, Ni Zan, Wu Zhen e Wang Meng)”, da
dinastia Yuan, assim como com Li Tang, Ma Yuan, Dong Yuan, Fan Kuan,
Ju Ran, Guo Xi , entre outros. A pintura de Zhang Daqian pode
descrever-se, na generalidade, como uma qualidade humanística, bela,
sublime e elegante.
O segundo período, do princípio dos anos quarenta
ao fim dos anos cinquenta, pode chamar-se o período de Dunhuang. Após
este iniciou o seu estilo próprio de pintura salpicada. Em quase três
anos de clausura artística em Dunhuang, havia sido profundamente
iluminado pelas grandes obras dos pintores da antiguidade. Assim, a
delicadeza, a elegância e o rigor marcaram o seu estilo de pintura
neste período.
No terceiro período, do início dos anos sessenta
até aos anos oitenta, o seu estilo de pintura salpicada passou a fase
de exploração e entrou numa fase de maturidade. Rompeu completamente
com as técnicas tradicionais de pintura, que usavam linhas como
linguagem de construção e linhas e traços como essência na composição
de uma obra. Combinando os métodos tradicionais da pintura de
paisagem, isto é, estrutura dissimulada, tinta salpicada
(splashed-ink) e coloração espessa, enfatizando ambos o entusiasmo
subjectivo e a apresentação natural, alcançou sucessivamente um
equilíbrio entre realidade e romantismo, percepção e razão, concreto e
abstracto, pintura e paixão. As influências ocidentais não o fizeram
abandonar a tradição chinesa, mas antes absorver os seus pontos fortes
desenvolvendo-os. Assim, criou um estilo de pintura chinesa
completamente novo marcado por um espírito e características nacionais
chinesas. Alguns consideram estes três períodos como as três
“edificações e imersões” na arte tradicional. Esforçou-se por procurar
energia a partir dos seus antecessores e da natureza, profunda e
sublime, como alguns dizem, como se a pintura de mestres das dinastias
Song, Yuan, Ming e Qing parecessem apenas uma antes do aparecimento de
Daqian, um gigante da arte moderna. Este artigo visa discutir o ponto
de viragem mais importante na carreira artística de Daqian: a sua
viagem para Dunhuang e o seu valor cultural.
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Sinete de Bambu ofertado a Zhang Daqian pelos
artistas de Macau, Li Ruizu, Xu Yunzhai, Lin Jin.
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Entre 1941 e 1943, num período de dois anos e sete
meses, Zhang Daqian levou mais de dez pessoas, incluindo os seus
discípulos e vários monges tibetanos para Dunhuang, após uma longa
viagem. Este acto constituiu uma estância majestosa na história da
arte moderna. Naquele tempo, era já um pintor famoso na China pelo que
questionamos o que o terá feito abandonar sem hesitação a vida de
lazer intelectual da cidade, para ir atrás do sonho que era Dunhuang.
Como o próprio explicou, “a razão da minha ida para
Dunhuang foi ter ouvido os senhores Zeng e Li falarem sobre os sutras
budistas e a cultura da dinastia Tang, mas nessa altura não sabia que
eram frescos. Quando regressei à Província de Sichuan, após a guerra
contra o Japão, o meu amigo Ma Wenyan, oficial do Departamento de
Supervisão, falou-me da sua viagem a Dunhuang, descrevendo a sua
grandiosidade com muita convicção. Tendo eu viajado toda a minha vida
e tratando-se de um local histórico, naturalmente tinha a intenção de
o visitar, e assim decidi fazer uma viagem até Dunhuang” (Xie Jiaxiao:
Biografia de Zhang Daqian, pág. 135). Para além disso o Sr. Ye
Gongchao também sugeriu indirectamente a Daqian que deveria fazer uma
viagem a Dunhuang, quando tivesse possibilidade. O artista recorda
este facto no prefácio das Colecções dos Trabalhos de Caligrafia e
Pintura de Ye Xieyan, “... então o Sr. Ye disse-me: ‘a pintura
figurativa tem origem em Wu Dao Xuan (Wu Dao Zi) e alcançou o seu
expoente máximo com Li Gong Lin. As pinturas de Qiu Chi Fu (Qiu Ying)
eram demasiado encantadoras e ternas; as de Chen Lao Lian eram
demasiado excêntricas. Nos trezentos anos da dinastia Qing não houve
grandes pintores figurativos.’ Assim, o Sr. Ye não se poupou a
esforços para me persuadir a desistir da pintura de paisagens, flores
e bambus, e a concentrar-me na pintura figurativa a fim de a
revitalizar. Em breve partiria em direcção às terras arenosas do
ocidente da China, para Yu Lin e as grutas Mogao, por um período de
quase três anos, e copiaria perto de trezentos frescos das dinastias
Wei do Norte, Sui, Tang e Song; e tudo isto por sugestão do Sr. Ye”.
Zhang Daqian conheceu os senhores Zeng e Li por volta de 1920, os
quais o levaram a inspirar-se na arte de Dunhuang. Esta viagem
constituiu uma necessidade de, por um lado, seguir as indicações dos
seus mestres e, por outro, de mudar o seu próprio estilo pictórico. O
famoso académico Lin Sijin escreveu no prefácio de “Colecções das
Cópias dos Frescos de Dunhuang da Casa Da Feng”:
“O meu amigo Zhang Daqian é um artista ambicioso
dedicado à arte da pintura e à caligrafia e ganhou fama mundial. Está
sempre a trabalhar e é de poucas palavras. Viu muitas pinturas das
dinastias Song e Yuan e da Escola Fayuan. Contudo, não satisfeito,
decidiu ir para Dunhuang à procura da pérola da arte. Preparou tudo e
atravessou o Desfiladeiro de Jiayu e Guasha Arca... Durante este
período, disse-me: ‘A China é é o berço dos seis métodos da pintura
figurativa. Quero prová-lo, investigando em Dunhuang os estilos de
pintura da antiguidade. Nesses tempos, muitos dos países circundantes
tinham como modelo as Planícies Centrais, o vestuário, os trabalhos
caligráficos, bem conhecidos na Europa, por isso não me poupo a
esforços para levar a cabo esta investigação.” Dizendo isto, Daqian
tornou claro o motivo e a finalidade da sua viagem a Dunhuang:
investigar a origem dos seis métodos da pintura figurativa e realizar
o seu sonho de ver os trabalhos autênticos de seis dinastias e das
dinastias Sui e Tang.
Nas duas décadas decorridas desde o início de 1920
até à sua viagem a Dunhuang, Daqian tinha-se elevado de estudante de
arte a mestre da arte tradicional. Conseguiu-o seguindo os estilos de
pintura das dinastias Ming e Qing e, apesar de toda a sua perícia, ele
próprio não podia diferenciar-se dos pintores tradicionalistas do seu
tempo. Como harmonizar os estilos de pintura de paisagem, desenho e
coloração delicados de pintores profissionais, foi esta a questão
essencial que o instou a fazer a viagem.
Dunhuang fica a ocidente do Corredor de Gansu,
porta das Planícies Centrais para as regiões do ocidente da China.
Desde o segundo ano de Jianyuan do Reino Qianqin (336 A.D.) até à
dinastia Yuan, os crentes Budistas construíram mais de um milhar de
grutas nos penhascos das Montanhas Mingsha. Existem ainda 492 grutas
com frescos e esculturas, num total de 45 000 m2 de frescos e mais de
2 400 esculturas coloridas. Estas grutas para além de constituírem a
arca do tesouro da arte colectiva dos chineses da antiguidade, foram
também um terreno sagrado para aqueles expressarem a sua devoção
religiosa. A modelação elegante e sublime, a coloração bela e intensa
dos frescos, são o escol de quase um milénio de pintura e escultura do
oriente e do ocidente. Suplantou toda a arte budista de outros tempos
e lugares. A sua temática é de origem religiosa mas está muito perto
da realidade: é cheia de vida, ritmo e vigor, o nácar da humanidade.
Antes da sua viagem, Zhang Daqian desconhecia a
existência de tão grande número de frescos. Sabia apenas que existiam
muitos sutras budistas e esculturas pintadas, e que muitas dessas
esculturas, com milhares de anos, haviam já sido roubadas. Desejou
então tornar-se um pintor que pudesse transformar, com o seu pincel,
essas esculturas tridimensionais pintadas em pinturas bi-dimensionais.
Este acto seria um grande feito na pesquisa da história da pintura
chinesa. Apesar de no início ter planeado concluir o seu trabalho em
alguns meses, este acabou por levar quase três anos a concluir. Em
1941, Zhang Daqian levou algumas pessoas a Dunhuang, entre as quais a
sua mulher, Yang Wan Jun, o seu segundo filho, Xin Zhi, professores da
Universidade Central de Chongqing e Sun Zhongwei, um discípulo
brilhante de Xu Beihong. Assim que chegaram a Dunhuang, ficou
absolutamente maravilhado com os frescos e com as delicadas e
coloridas esculturas. Contrariamente ao que tinha planeado, decidiu
deixar o trabalho de desenho das esculturas para Sun Zhongwei,
enquanto ele próprio copiava os frescos. Para sistematizar o trabalho,
numerou primeiro as grutas, as quais haviam sido já anteriormente
numeradas pelo francês Paul Pelliot; este tinha fotografado os frescos
das Grutas Mogao, contabilizando, no total, 171 grutas. Esta numeração
era desordenada e, segundo Daqian, não sistematizada. Outra numeração
foi dirigida, em l930, pelo Departamento Governamental de Gansu,
contabilizando então 353 grutas. Como a segunda numeração era
raramente usada, a maior parte das marcações caíram, para além de
conterem muitos erros. Zhang Daqian foi a terceira pessoa e o primeiro
chinês a numerar as Grutas Mogao com rigor. A sua numeração seguiu a
direcção do canal que desce das Montanhas Qilian e que ascende ao
longo das grutas, ou seja, de sul para norte e da esquerda para a
direita, sendo o caminho percorrido pelo canal semelhante à letra “E”.
Esta numeração foi resultante de cinco meses de trabalho árduo. Foram,
ao todo, numeradas 309 grutas.
Em 1942, concluído o trabalho de numeração, Zhang
Daqian convidou os pintores tibetanos Ang Ji, San Zhi, Xiao Wu Ge
Lang, Lo Shang Wa Zi, Du Jie, Ling Qie para o acompanharem a Dunhuang.
No mesmo ano , o seu sobrinho Zhang Bide, os seus discípulos Xiao
Jianchu e Liu Lishang, e o seu amigo íntimo Xie Ziliu vieram ajudá-lo.
A tarefa de um dos cinco pintores tibetanos era preparar os panos de
pintura. Em primeiro lugar, uniam os panos com tanta perfeição que
pareciam um só pano; em segundo lugar, o tecido era esticado
firmemente numa moldura de madeira e pintada três vezes com pó de
borracha, moído sete vezes com uma pedra grande. Igualmente importante
era a composição das cores. Os frescos Budistas têm a sua própria
tradição no emprego das cores, a qual era desconhecida da maioria dos
pintores da pintura tradicional chinesa. Daqian instruiu os seus
discípulos, o seu filho e sobrinho e os pintores tibetanos a dividirem
o trabalho de cópia dos frescos entre si, enfrentando e ultrapassando
várias dificuldades, tais como a falta de luz e o espaço limitado
dentro das grutas. As cores dos frescos originais desvaneceram-se com
o tempo; muitas desaparecem na totalidade, enquanto que algumas linhas
não se distinguiam claramente.
Assim, em primeiro lugar, tinham de subir a
escadotes e agachar-se para desenhar os esboços dos frescos sobre
papel transparente aposto nas paredes. A seguir, tinham de juntar o
papel transparente ao tecido. À luz do dia, desenhavam as linhas
gerais das pinturas sobre o tecido com carvão, à luz do sol, usando em
seguida tinta da China preta para desenhar os contornos. O último
passo era colorir os desenhos. Todas as partes principais dos frescos
contendo figuras Budistas eram desenhadas e coloridas pelo próprio
Daqian: os pavilhões, edifícios, mobiliário e outras decorações de
fundo eram feitas, em conjunto, pelos seus assistentes. O mestre
muitas vezes segurava uma vela numa mão e um pincel na outra, ora de
pé, ora agachado nos escadotes, por vezes até deitando-se no chão.
Passava muito tempo a estudar os frescos antes de começar a desenhar.
Cada pintura iria passar por uma série de procedimentos complicados,
levando as pinturas grandes normalmente dois meses a concluir,
enquanto que as pequenas levavam cerca de dez dias. Todos os dias o
grupo entrava nas grutas de manhã cedo e saía à tardinha com as faces
sujas e os cabelos em desalinho. Dia após dia, mergulhavam na
“fogueira da arte”.
Quanto aos métodos de cópia, Zhang Daqian
sublinhava que o desenho devia ser muito preciso e sem qualquer tipo
de interpretação pessoal. Pela apreensão da forma do fresco, adquiriu
um conhecimento mais profundo da sua conotação espiritual.
Considerando as alterações de estilo através dos tempos, entendia que
“as pinturas da dinastia Wei do Norte são excelentes na representação
de paisagens, tais como montanhas e florestas; no período da dinastia
Sui, os estilos de pintura imitavam os da dinastia Sui (???) e eram
acrescidos de simplicidade e tranquilidade; na dinastia Tang, as
pinturas eram igualmente elegantes, cheias de vida e fortemente
coloridas; no período das Cinco dinastias e começando pela dinastia
Song, as pinturas eram de qualidade artística inferior, uma vez que
existiram poucos pintores notáveis nessa época; as pinturas na
dinastia Xi Xia continham alguns elementos novos, mas que não eram
naturais e portanto de valor artístico inferior.” (Zhang Daqian:
Prefácio da Colecção de Cópias dos Frescos de Dunhuang).
Quanto ao espírito artístico, Zhang Daqian entendia
que a escala imensa dos Frescos de Dunhuang eram prova do
extraordinário poder criativo do povo chinês da antiguidade. Em termos
de valor artístico, os Frescos de Dunhuang eram mais valiosos do que
as esculturas de pedra de Yungang, da Província de Shanshi e do que as
Estátuas Longmen da Província de Henan. Segundo Zhang Daqian, Dunhuang
não era apenas a arca do tesouro da arte chinesa, mas também a do
mundo da arte. Em sua opinião, o número, o alcance temporal, os
estilos de pintura e os pintores dos frescos de Dunhuang não têm
paralelo. Zhang fez um relato da influência dos frescos de Dunhuang na
pintura Chinesa que se traduz nos dez aspectos seguintes:
Primeiro: imagens de Buda e figuras humanas;
segundo: a ênfase dos contornos; terceiro: a reabilitação do método
antigo de desenho dos contornos e coloração; quarto: a mudança do
estilo miniatura delicado para o estilo grandioso; quinto: a mudança
do estilo simples para o estilo exacto; sexto: conhecimento exacto do
método de pintura de Budas e Bodhisatvas; nas pinturas, as mulheres
são retratadas vigorosas e graciosas; sétimo: a mudança da pintura de
temas históricos para a pintura realista; nono: as imagens
surrealistas de Buda eram usadas para agradar ao gosto do povo;
décimo: a pintura ocidental não podia já amesquinhar a pintura chinesa
devido à existência dos frescos de Dunhuang. (Zhang Daqian: Os Fescos
de Dunhuang). O entendimento de Zhang Daqian sobre a Arte de Dunhuang
tinha sido alcançado através da sua prática artística. Existem
diferenças distintas entre o seu trabalho antes e depois da sua viagem
a Dunhuang. A coloração e a disposição dos traços, antes e depois da
viagem, são diferentes. A partir dos frescos, visionou a precisão do
pensamento dos pintores da antiguidade e a perfeição do seu mundo
espiritual. A sua atitude para com a realidade artística, os seus
grandes esforços e a busca paciente da precisão estimularam-no a
colocar um ponto final no estilo de pintura casual e descuidada e a
desenvolver um novo estilo de pintura, herdando o elevado espírito
artístico da arte da antiguidade . Zhang Daqian passou um total de
dois anos e sete meses em Dunhuang. Durante este período, copiou 276
frescos de pequena e grande dimensão (183 peças estão guardadas no
Museu Provincial de Sichuan, e 62 peças no Museu do Palácio Nacional
de Taiwan, incluindo cópias de frescos existentes nas Grutas de Mogao
e Yulin). Não é possível imaginar as dificuldades que experimentou
durante esse período. Como disse o escritor Gao Yang, “Zhang Daqian
foi um asceta na investigação da Arte de Dunhuang. Espiritualmente
falando, tinha algo em comum com o monge Budista Xuan Zang, mostrando
amplamente a sua coragem, persistência e devoção à arte. O facto
próprio ter passado mais de dois anos em Dunhuang foi um grande
feito.” (Gao Yang: Vida e Morte: Meiqiu e Residência do Pintor Maia,
p. 187).
A compreensão e avaliação do valor artístico das
reproduções dos Frescos de Dunhuang, de Zhang Daqian, tem sido sempre
controversa nos círculos de pintura. Já em 1941, Daqian havia
permanecido nas Grutas Mogao durante um curto espaço de tempo, e havia
enviado a um seu amigo em Chengdu mais de vinte das suas cópias de
figuras individuais das Grutas Mogao, confiando-lhe a realização de
uma “exposição de pintura da viagem de Zhang Daqian ao Ocidente da
China”. Este facto deu origem a elogios e, ao mesmo tempo, a muitas
críticas. Algumas pessoas chegaram a pensar que os Frescos de Dunhuang
eram meros resultados de superstição religiosa realizados por artesãos
vulgares, e que um pintor que se entregava a tais pinturas estava,
certamente, a enlouquecer. Todavia, o artista não retrocedeu perante
estes comentários. Ao contrário, tornou-se ainda mais determinado a
levar por diante o grande projecto de Dunhuang. Segundo o seu ponto de
vista, nas Dinastias Tang e Song, os pintores empenhavam-se
invariavelmente na pintura de frescos. Muitos dos frescos de Dunhuang
não eram trabalhos de simples artesãos mas sim de pintores famosos;
“os seus trabalhos eram obras primas da pintura figurativa e o padrão
dos estilos da pintura antiga.” (Zhang Daqian: Prefácio da
Exposição de Cópias dos Frescos de Dunhuang, 1944). Em 1943, foi
realizada a Exposição “Cópias dos Frescos de Dunhuang, de Zhang
Daqian”, em Lanzhou. Só então, as pessoas começaram a aperceber-se do
potencial valor artístico destes frescos. O Northwest Daily
noticiou que Zhang Daqian tinha passado vários anos em Dunhuang,
estudando os frescos no próprio local, seguindo a pista das tradições
da pintura de há milhares de anos. Os seus esforços deram a conhecer
ao mundo as até aí desconhecidas Grutas de Dunhuang e as pinturas
autênticas das Seis Dinastias, das dinastias Sui e Tang, que assim
foram vividamente trazidas do esquecimento. Em 1944, teve lugar em
Chengdu uma outra exposição das cópias dos Frescos de Dunhuang, de
Zhang Daqian. A grandiosa Arte de Dunhuang foi altamente enaltecida
por todos os círculos sociais. No mesmo ano, a exposição foi realizada
em Chongqing, com idêntico sucesso. Imediatamente, por toda a China
tomou forma um “Culto de Dunhuang”. Tinha sido despertada a
consciência pública para a importância de apreciar e proteger esta
magnífica herança histórica. Mas alguns ainda sustentavam que “copiar
era a última coisa que um artista deveria fazer, pois a missão de um
pintor era criar.” Apesar dos elogios e censuras, a maioria das
pessoas nos círculos académicos e das belas-artes teciam críticas
favoráveis à pesquisa persistente de Zhang Daqian sobre a natureza da
arte. O famoso pintor Ye Qianyu notou que “O seu é um trabalho
histórico pioneiro acerca do estudo da arte da Antiguidade; isto é
também um factor decisivo que o impeliu a ascender ao topo da pintura
figurativa.” (Ye Qianyu: Prefácio das Colecções de Cópias dos
Frescos de Dunhuang, de Zhang Daqian). Do ponto de vista da
filogenia da arte moderna temos que dizer que se não tivesse sido por
esta árdua viagem a Dunhuang, não teria existido nenhum Zhang Daqian,
o grande mestre da pintura.
Já passou mais de meio século e à medida que
recordamos a sua árdua viagem ao “deserto” e aos anos que passou em
frente à paredes das grutas e examinamos as obras primas que nos
deixou, não é difícil descobrirmos o seu profundo significado
histórico.
O primeiro significado reside no facto de, ao
contrário de outros pintores do seu tempo, Zhang Daqian ter feito uma
escolha completamente diferente, de extraordinária coragem. O final do
séc. XIX testemunhou a reavaliação da cultura tradicional chinesa e
questionou o seu futuro. Este fenómeno originou a autocrítica de todos
os aspectos da cultura tradicional chinesa. A necessidade de uma
“reforma” e “revolução” na pintura foi também desejada. Enfrentando a
colisão das culturas chinesa e ocidental os pintores fizeram as suas
próprias escolhas.
Zhang Daqian foi célebre pelas suas técnicas de
pintura tradicional e versatilidade. As obras famosas que tinha
copiado eram em tal número que aquilo que tinha realizado era
considerado um fenómeno raro nos tempos modernos. Contrariamente a Xu
Beihong e Lin Fengmian, que receberam o baptismo da cultura ocidental
na sua juventude, Zhang Daqian não reformulou os princípios da
modelação da pintura tradicional, Enquanto Xu Beihong reformulou estes
princípios através de “métodos científicos” das belas-artes ocidentais
modernas, e Lin Fengmian expressou o ritmo da arte chinesa através da
forma e da textura da pintura ocidental. Zhang Daqian acreditava
firmemente que a arte tradicional da pintura era um tesouro
infindável. Fora da “pintura tradicional comum”, foi só em Dunhuang
que Zhang Daqian encontrou o ponto decisivo que abriu novas fronteiras
à pintura chinesa. Referiu o seguinte: “Em termos de valor artístico,
podemos dizer que os Frescos de Dunhuang são a condensação de todos os
feitos da arte da pintura chinesa e oriental antiga. Os Frescos de
Dunhuang personificam mil anos de desenvolvimento da história das
belas-artes chinesas, da dinastia Wei do Norte à dinastia Yuan. Por
outras palavras, podemos dizer que eles constituem o apogeu da arte
budista... Os Frescos de Dunhuang foram pintados mil anos antes da
Renascença europeia. O facto de se encontrarem ainda em condições
bastante boas é um milagre da civilização humana”. Nos anos trinta,
não se prestou muita atenção à arte popular, mas se pesquisarmos a
história anterior à dinastia Tang, podemos concluir que a arte popular
constituía a corrente dominante da arte. Após a dinastia Song, a
tradição intelectual começou a prosperar. A arte popular é um terreno
rico de formas ricas e belezas formais. É o pilar principal da
construção do julgamento estético. Zhang Daqian não foi como Qi Baishi
que, de artesão, se transformou num mestre da arte. Qi Baishi comentou
as pinturas dos intelectuais de acordo como o seu próprio
entendimento. Pode dizer-se que a sua capacidade de absorção da arte
popular é inata, enquanto que Zang Daqian, um pintor intelectual com
uma educação cultural significativa, absorveu de forma activa e
intencional a arte popular. Na sua opinião, as obras dos pintores
menores não eram de forma alguma inferiores às dos grandes pintores
como Yan Liben e Wu Daozi. Por isso teve a coragem de se dedicar ao
estudo dessas pinturas a fim de desenvolver um estilo próprio. O
grande mestre de estudos chineses, Chen Yinge, comentou o seguinte
após ter visto as cópias dos Frescos de Dunhuang, de Zhang Daqian: “O
estudo de Dunhuang é uma das tendências mais importantes da pesquisa
cultural e académica dos nossos dias. Ao copiar os frescos da dinastia
do Norte, da dinastia Tang e das Cinco Dinastias, Zhang Daqian abriu
uma porta para dar a conhecer este tesouro nacional, e o seu feito
ultrapassou resultados de pesquisas anteriores. Graças ao seu talento,
apesar de apenas ter efectuado cópias dos frescos, realizou um
trabalho cheio de criatividade. Na verdade, havia já desenvolvido um
novo domínio, baseando-se na arte tradicional. O seu trabalho é sem
dúvida um grande acontecimento no campo do estudo de Dunhuang”. Zhang
Daqian não é um académico da história da pintura; no entanto, o seu
conhecimento profundo e visão penetrante dos pintores antigos e da
teoria da pintura, o seu profundo discernimento dos estilos históricos
da pintura e a compreensão do seu espírito, ofuscam os historiadores
comuns. A sua viagem a Dunhuang não é mais que o resultado da
introspecção do desenvolvimento e das mudanças nos estilos da pintura
ao longo de milhares de anos. Qualquer mestre de arte com sentido de
responsabilidade e confiança tomaria inevitavelmente em mãos a missão
de revitalizar a arte nacional. Apenas Zhang Daqian viu com clareza
que a fonte da arte tradicional consistia de três partes mutuamente
complementares: arte popular, arte intelectual e arte da corte. Como
artista global acompanhou as tendências do seu tempo. Podemos também
dizer que a história o elegeu.
Em segundo lugar, após a sua cultivação estética em
Dunhuang, alcançou a sua transcendência. Na obra “Estudo sobre Zhang
Daqian” de Ba Dong, do Museu Nacional de História de Taiwan, o autor
refere que os primeiros estilos da pintura de Zhang Daqian seguiram os
estilos dos Quatro Monges do fim da dinastia Ming e que as técnicas de
pintura que adoptou foram as das dinastias Yuan e Ming. Quando
efectuou a longa viagem a Dunhuang, testemunhou uma grandiosa,
delicada e espectacular manifestação da arte. A persistência e a
devoção dos pintores profissionais que executaram os Frescos de
Dunhuang, o brilho radioso e o vigor, são tudo qualidades que aqueles
pintores intelectuais orgulhosos não possuem. Ele ficou muito chocado
e profundamente comovido com os frescos; foi ali que foi iluminado e
que compreendeu a essência “da sublimação de Buda e dos Bodhisatvas”.
Por isso não teve mais dúvidas na sua criação artística, desafiando as
más condições de vida e encarando esse teste com persistência. Na sua
busca artística sem o mínimo oportunismo, tinha demonstrado
sinceramente as mesmas qualidades, determinação e devoção desses
pintores primevos. A partir daí entrou no domínio dos tempos antigos,
e atingiu a elevação espiritual. Todos os seus esforços fizeram dele
um mestre da arte do seu tempo que “emprega o passado para criar o
presente”. Podemos dizer que todo o processo levado a cabo por Zhang
Daqian, de cópia das pinturas antigas, é apenas um processo de
descoberta da beleza. Ele não prestou apenas atenção às obras dos
pintores intelectuais da dinastia Ming e Qing; o seu alcance artístico
estendeu-se à herança da dinastia Tang e anteriores. Foi qualificado
como um pintor intelectual, e também tinha a aptidão de um pintor
académico. Mas a sua escolha não recaiu nem nos estilos de pintura
casual e mundana dos pintores intelectuais, nem num estilo académico
de pintura trivial e sem vida. A sua escolha foi aquilo que designou
por “a pintura do pintor”, rica em sabor cultural. A sua proposta era
um desafio contra as ideias daqueles pintores renovadores e dos
pintores intelectuais comuns. Zhang Daqian expressou a intenção de
despender mais tempo a pesquisar. Disse humildemente que “apenas tocou
em alguns frescos”. Mas a sua pesquisa sobre Dunhuang, e mais de
trezentas cópias dos fresco,s constituem, indubitavelmente, o mais
comovente capítulo no mundo artístico deste grande mestre. A cópia em
si não constituiu a verdadeira intenção de Zhang Daqian. Na verdade,
através do seu árduo trabalho, de um mero sustentáculo da tradição,
transformou-se num amalgamador da arte de pintar. O tipo de fusão não
é o das artes ocidental e chinesa, mas sim a harmonização de
estruturas artísticas internas da arte tradicional. Pode também
dizer-se que esta fusão é a re-anotação da “tradição” na sua mente de
artista moderno. Zhang Daqian encontrou na arte de Dunhuang a “vida de
cor” há muito perdida da pintura chinesa. Esta “iluminação” abrangeu o
cerne espiritual da sua técnica de pintura. Pode dizer-se que a
jornada para Dunhuang lançou as fundações para que Zhang Daqian se
tenha tornado um mestre da arte do seu tempo.
Wei Xue Feng
Investigador, Vice-Curador do Museu Provincial de
Sichuan