|
SOBRE A REPRODUÇÃO DOS
FRESCOS DE DUNHUANG FEITA POR ZHANG DAQUIAN
por Xie Zhiliu
A pintura figurativa de Zhang Daqian assemelhava-se,
nos seus primórdios, aos estilos das pinturas das Dinastias Ming e Qing.
No entanto, a sua transformação e evolução pictórica, particularmente a
dos modelos femininos, foi manifesta depois de, em 1941, ter estado em
Dunhuang, durante dois anos e sete meses, onde se dedicou com todo o
empenho à pesquisa e à imitação dos maravilhosos frescos antigos,
particularmente os de figuras humanas. Acompanhado por alguns dos seus
familiares e também por estudantes reproduziu mais de 270 frescos.
Segundo registos históricos, as Grutas Mogao, aliás, Grutas de Mil
Budas, foram construídas no ano de 366 a.C. Situadas no sopé da Montanha
Mingsha, estendem-se por um li (um li equivale a meio kilómetro), desde
o sul até ao norte, e têm cerca de dez metros de altura. São mais de 400
grutas que se encontram estreitamente juntas e cujas as paredes estão
cobertas pelos frescos feitos da Dinastia Wei à Dinastia Song. No
entanto, devido a guerras que se sucederam ao longo de vários séculos,
as grutas ficaram deterioradas e algumas das pinturas completamente
destruídas.
A falta de registos históricos levou a que esta maravilha fosse ignorada
em todo o mundo. Em 1900 e em 1907, um húngaro e um francês passaram
pelas grutas e roubaram livros budistas e outras relíquias. Foi a partir
de então que o nome de Dunhuang começou a ser conhecido no estrangeiro,
passando a ser um alvo de apreciação e de investigação.
Sobre as grutas, Zhang Daqian escreveu: “Quando cheguei a Dunhuang,
fiquei muito surpreendido. Apesar de ter estudado numerosas pinturas
antigas, não consegui compreender bem os frescos existentes nas grutas.
Fiquei a saber que por detrás da montanha há mais montanhas e por detrás
do pavilhão há mais pavilhões. Onde é que podia encontrar uma pintura
tão rica e tão antiga como esta?” Cheio de admiração, começou a imitar
os frescos de Dunhuang. Mas, no princípio, debateu-se com vários
problemas. Como todas são viradas para leste, só podia trabalhar durante
a manhã uma vez que à tarde as grutas ficam totalmente às escuras, o que
o impossibilitava de continuar. Além disso, a seda e o papel que trouxe
de Chengdu eram demasiado pequenos para copiar frescos de maior dimensão
e, por isso, tinham que ser cosidos ou colados, o que afectou a
qualidade do trabalho. Outro problema resultou do facto de os corantes
comuns que costumava usar não conseguirem transmitir as cores originais
dos frescos.
Para tentar ultrapassar alguns destes contratempos, enviou os seus
filhos a Xinin onde convidaram alguns lamas para participarem no
trabalho, uma vez que estes eram, não só, excelentes pintores de temas
religiosos como tinham experiência e técnicas adequadas ao tratamento
pictórico necessário para a tarefa que estava a ser efectuada nas grutas
de Mogao. Através dos pincéis dos lamas, corantes vulgares resultaram em
lindíssimas cores. Assim, a resolução dos problemas que tinham
preocupado Zhang Daqian ficou, em muito, a dever-se ao seu contributo.
Como havia uma grande quantidade de frescos para reproduzir, o pintor
apenas traçava as linhas das figuras ficando o trabalho de colorir a
cargo dos lamas. Um dia, quando estava a trabalhar na gruta n.º 20,
descobriu que sob um fresco deteriorado da dinastia Song existiam
algumas linhas e cores. Analisou-o com os estudantes e chegou à
conclusão de que, sob as primeiras camadas, deviam existir testemunhos
pictóricos de períodos mais remotos. Decidiram descascar o fresco
superficial e acabaram por descobrir um fresco da dinastia Tang. Após
reparado, este fresco, que deveria ser da autoria de um pintor
invulgarmente dotado, revelou ricas cores e linhas fantásticas,
tornando-se o único testemunho da pintura do Reinado Tianbo, da Dinastia
Tang. Este achado foi posteriormente descrito pelo artista num catálogo
destinado à exposição da reprodução de frescos de Dunhuang.
Fascinado por pintores anónimos da dinastia Tang, absorveu muitos
testemunhos técnicos e pictóricos por eles legados o que contribuiu
substancialmente para a sua renovação técnica, que lhe permitiu figurar
entre os maiores pintores da modernidade. Há críticos que consideram que
Zhang Daquian encontrou o seu caminho através dum estudo progressivo.
Ao falar do sucesso da sua pintura, este mestre afirmou que de acordo
com a sua experiência, em primeiro lugar, é fundamental que um pintor
esteja atento à reprodução das pinturas antigas a fim de dominar bem a
técnica de traçar devendo depois dedicar-se ao desenho de objectos
vivos. Por último, deverá esforçar-se por criar o seu estilo próprio.
Sintetizando a sua experiência, destacou dez pontos que considera
indispensáveis:
-
IMITAR PINTURAS ANTIGAS - o iniciado deve conhecer
as regras através da prática da técnica de desenho;
-
DESENHAR OBJECTOS VIVOS - o pintor deve, através da
intuição e da sensibilidade, observar e compreender a natureza dos
objectos;
-
DETERMINAR O SIGNIFICADO INTRÍNSECO DA PINTURA -
figura humana, paisagem, montanha, rio, flores, factos históricos
devem ser relacionados mesmo que o tema seja de menor significado;
-
CRIAR O SEU PRÓPRIO UNIVERSO ARTÍSTICO PARA NÃO
FICAR APRISIONADO AO CONVENCIONALISMO;
-
LIVRAR-SE DA MEDIOCRIDADE E PROCURAR A
SUBLIMIDADE;
-
EVITAR PORMENORES DESNECESSÁRIOS E
IMPRÓPRIOS;
-
PRIVILEGIAR O ESPÍRITO QUANDO SE FAZ A COMPOSIÇÃO
DA PINTURA;
-
CAPTAR A ESSÊNCIA ESPIRITUAL DOS OBJECTOS EM VEZ DA
SUA FISIONOMIA, SEM CONTRARIAR AS REGRAS FUNDAMENTAIS;
-
DEIXAR O CORAÇÃO EM SERENIDADE E O PINCEL À
VONTADE. NÃO SER ARROGANTE GRAÇAS AOS DOTES NATURAIS QUE SE POSSUI;
-
APRENDER A RENOVAR-SE ATRAVÉS DO TESTEMUNHO DOS
MESTRES ANTIGOS, SEM NO ENTANTO PLAGIAR O TRABALHO DESTES.
Depois do regresso de Dunhuang, o artista fez numerosas pinturas
femininas, com destaque para as que realizou no Tibete onde pintou
muitas raparigas locais. Pinturas fantásticas que revelam plenamente a
técnica e o estilo que soube assimilar com a experiência adquirida
através da reprodução dos frescos das grutas de Mogao.
Zhang Daqian afirmava que o objectivo da pintura não consiste na
definição da fisionomia real do modelo, nem no descuido exagerado na sua
reprodução, uma vez que, mesmo que seja idêntica ao objecto que
representa, não é comparável à fotografia. No entanto, se uma pintura
ignorar as características, a substância do modelo, melhor é que não
seja executada. A pintura ideal é a que consegue atingir o meio termo
entre a reprodução e a realidade, captando acima de tudo, a essência.
Eis a Pintura como Arte.
|
menuP
|
|