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AS ACTIVIDADES ARTÍSTICAS
DE ZHANG DAQIAN EM MACAU

 

Dunhuang ponto de passagem da “Rota da Seda Terrestre”; Macau importante entroncamento da “Rota da Seda Marítima”. Ambas as cidades exerceram grande influência no caminho trilhado por Zhang Daqian, e constituíram dois pontos de viragem na sua vida artística. Em 1941 foi para Dunhuang trabalhar dois anos e sete meses, e assimilou elementos das pinturas murais das dinastias Wei Norte, Sui, Tang e Cinco Dinastias, que lhe possibilitaram dar o seu primeiro salto artístico. Em 1949, residiu em Macau durante três meses e meio, e, neste “ponto de encontro das culturas chinesa e portuguesa”, constatou as tendências da evolução histórica e do desenvolvimento artístico da China. Expressou os seus sentimentos e aspirações através de pincel e tinta e decidiu partir à descoberta do mundo.

Por ocasião da inauguração em Macau da “Exposição de Reproduções dos Frescos de Dunhuang e Sinetes de Zhang Daqian”, é significativo recordar as descrições de duas antigas personalidades da cultura de Macau sobre a permanência do grande mestre na cidade, segundo as quais, a imagem intrépida e o riso franco de Zhang Daqian parecem continuar nela presentes.
 

I. Zhang Daqian recordado por Huang Yunyu

Huang Yunyu (1902-1988) foi um célebre pintor e jornalista de Macau, que se dedicou às actividades jornalísticas e às belas-artes.

Contou-nos que em princípios de 1949, Zhang Daqian realizou uma exposição de pinturas em Hong Kong. Logo após a Festa da Primavera, chegou a Macau a convite do comerciante Cai Keting, então membro do Conselho de Administração da Associação de Benevolência do Hospital Kiang Vu, com morada na Rua da Sé nº18, atrás dos Correios de Macau. O edifício era uma típica casa chinesa, conhecida por “Grande Casa da Família Cai”. Quando Zhang Daqian e a mulher chegaram a Macau, foram alojados num quarto do rés-do-chão daquela casa; na sala maior que serviu de estúdio de pintura foi colocada uma grande prancha composta por duas mesas de jantar.

Em Macau, um outro amigo de Zhang Daqian foi o fotógrafo Lu Shidong, que instalou a “Sala de Fotografia Mui Un”, no rés-do-chão dum edifício em frente da Santa Casa da Misericórdia. O artista costumava subir pela Travessa do Roquete e ia para o estúdio conversar com Lu Shidong sobre temas variados, nomeadamente as relações entre a pintura e a fotografia. Como Huang Yunyu era amigo de Lu Shidong, conheceu Zhang Daqian naquele local, e apresentou-lhe alguns pintores de Macau como Rong Shu Shi, Ma Shao Ru e Zhao Ming Shan.
Zhang Daqian foi muito simpático para os pintores locais, convidando-os a observar o seu trabalho o que lhes permitiria aprofundarem as suas técnicas e trocar experiências.
 

II Um Mestre para os Artistas de Macau

Zhang Daqian embora sendo um pintor da Província de Sichuan, não tinha preconceitos negativos relativamente aos alunos de Macau, que dominavam um estilo artístico diferente, o da escola de Guangdong. Zhao Ming Shang foi aluno de Si Tu Qi e pertenceu à terceira geração da escola de Guangdong. Depois de verificar as suas obras, o mestre admirou muito as suas técnicas de pintura, considerando-o um dos jovens pintores mais talentosos de Macau.

Naquela altura, Zhao Ming Shan tinha um jardim privado “Lei Fong Un”, na Estrada de Adolfo Loureiro, ao lado do actual Jardim Lou Lim Iok. Durante os anos em que viveu em Chengdu Zhang Daqian dedicou-se à plantação flores que embelezassem o seu jardim. Em Macau, visitava frequentemente o Jardim Lou Lim Iok e o Jardim Lei Fong Un para se deleitar com as flores e plantas neles existentes. Considerava que todas as flores de vaso deveriam ser postas junto das pessoas, para que o pintor pudesse observar e desenhar a sua configuração.


III Apreciando flores, pintando e recitando

A beleza do Jardim Lou Lim Iok e do Jardim Lei Fong Un despertaram a sua inspiração. O pintor desenhou muitas vezes no Jardim Lei Fong Un, e escreveu um par de dísticos a fim de estimular Zhao Ming Shan a estudar e a pintar mais. Zhang Daqian depositou grande esperança no futuro artístico de Zhao Ming Shan, mas este morreu na década de 60.

Em Macau, mantinha uma rotina quotidiana. De manhã, em companhia do filho e de dois gibões brancos, caminhava até ao Jardim de Camões, onde fazia ginástica. Usando trajes tipicamente chineses despertava grande curiosidade junto das crianças que não deixavam de segui-lo para brincar com os dois macacos. As pessoas ignorando de quem se tratava, pensavam que era um artista ambulante vindo de outras províncias da China.

Após o almoço dormia a sesta. Depois, com o espírito e vigor recuperados, pintava toda a tarde na companhia de amigos. Durante este período, o famoso pintor de Macau Deng Fen estava também hospedado na “grande casa”, onde todos conviviam animadamente recitando poemas, pintando e bebendo. Zhang Daqian chegou mesmo a cozinhar pratos da sua terra para que os seus amigos de Macau pudessem provar outro estilo culinário.
 

IV Huang Miaozi visita Zhang Daqian

Decorria a Primavera de 1949, e o casal Huang Miaozi que morava em Hong Kong e que conhecera o artista na década de 30, ao saber que o seu amigo estava em Macau, decidiu visitá-lo.

Durante a sua estada o artista pintou dois quadros para o casal Huang e para Lu En. Infelizmente, esta valiosa pintura desapareceu durante os anos agitados da “revolução cultural.

Enquanto estavam juntos o arista mostrou uma belíssima pintura de flores de peónia e ameixeira com um ramalhete de bambú, que fez numa cabaia da filha de Cai Keting, explicando que quando era jovem estudou as técnicas de tinturaria e estamparia no Japão.
 

V Pinturas de flores de lótus

Em Fevereiro de 1949 do calendário lunar, a pedido de He Xiangning, viúva de Liao Zhongkai, velho militante do Partido Nacionalista, Zhang Daqian pintou o “Quadro de Flores de Lótus”, o qual foi levado por He Xiangning para Pequim e oferecido a Mao Zedong, então Presidente do Partido Comunista da China. Esse quadro está exposto na antiga residência de Mao Zegong, em Zhong Nan Hai, sede do Governo Central Popular, mas esta entrega é praticamente desconhecida do público. Quando Zhang Daqian morreu, o Jornal de Pequim “Ren Min Ri Bao” deu a conhecer pela primeira vez, no dia 23 de Maio de 1983, uma notícia sobre esta oferta de Zhang Daqian a Mao Zedong e confirmou que esta pintura “será coleccionada no «Álbum de Donativos de Pintores e Calígrafos na Biblioteca da Antiga Residência de Mao Zedong»”.

Logo após a Festa de Primavera, Zhang Daqian pintou muitos quadros de flores de lótus e escolheu um para uma pessoa de Hong Kong. Huang Yunyu considerou que este deveria ser o tal quadro que foi entregue a Mao Zedong, por intermédio de He Xiangning. Porém, como He Xiangning, Zhang Daqian e Huang Yunyu morreram, ninguém pode testemunhar que o «Quadro de Flores de Lótus» actualmente depositado em Zhong Nan Hai é o que foi pintado por Zhang Daqian. O historiador de Macau, Dr. Chen Shurong também se referiu àquele quadro num texto sobre o artista dizendo que foi inspirado numa paisagem do Jardim Lou Lim Iok. Outro comentário, subentendia que a entrega do quadro foi uma declaração política para apoiar Mao Zedong e o Partido Comunista da China.

Zhang Daqian apreciava particularmente pintar flores de lótus, sendo conhecido como “pintor mágico de lótus”. Ficou apaixonado pela flor de lótus porque tinha as mesmas qualidades que esta planta. Apesar de serem muitas as especulações só a realização de mais investigações, poderá confirmar se este quadro demonstrou alguma intenção especial de Zhang Daqian.

Na China, é tradição dos intelectuais o aproveitamento e a sua auto-identificação com um determinado objecto como demonstração dos sentimentos e de personalidade. Os meados do século XX constituíram um momento muito marcante de viragem histórica, e Zhang Daqian fez uma opção muito significativa ao usar este quadro para transmitir o seu pensamento a Mao Zedong.

Em meados de Maio de 1949, Zhang Daqian deixou Macau para sempre. Para agradecer tudo o que este mestre lhe ensinou, Zhao Ming Shan ofereceu-lhe dezenas de espécies de plantas e sementes do seu Jardim Lei Fong Un. Em fins de Novembro de 1949 deixou a China, tendo-se radicado em vários países ocidentais, no intuito de estudar outros estilos artísticos. Ao longo de cinquenta anos, as plantas oferecidas por Zhao Ming Shan foram desabrochando e crescendo na Província de Sichuan, continuando a simbolizar a eterna amizade selada entre Zhang Daqian e os pintores de Macau.

Que sejam eternos o espírito do Mestre Zhang Daqian e suas artes!


Choi San
Assessor do Instituto Cultural da RAEM
 

 

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