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Outras Informações

O Regresso do Anónimo
(por Yao Sunteck, artista de mímica corpórea, formado em Artes do Espectáculo pela Université Paris III - Sorbonne Nouvelle)

Percorrendo o palco, a névoa das montanhas, o canto, elas são 11, talvez mais, esculpindo ou tentando reconstruir a paisagem da sua terra natal, brutalmente destruída pela guerra ou simplesmente por negligência da História.

A coreógrafa franco-vietnamita Ea Sola deu início, na sua criação Seca e Chuva, a uma viagem atrás no tempo e pela memória colectiva dos inúmeros vietnamitas que sobreviveram ou pereceram na guerra. Memórias relembradas, fantasmas invocados, para a terra e para o presente.

Nascida no sul do Vietname, Ea Sola testemunhou com os próprios olhos a crueldade da guerra, a qual se revelou uma tortura que ao longo de dezasseis anos acarretou a destruição do país. Em 1974, Sola fugiu com a mãe para França, estabelecendo-se em Paris. Estabelecendo-se é uma maneira de expressão. Na verdade, a coreógrafa nunca deixou de se questionar, mesmo num país moderno e civilizado como a França. Como artista, Sola costumava passar horas infindáveis nas ruas de Paris, imóvel, num acto de indiferença a um lugar onde não pertencia; ou ponderando onde se poderia fixar.

O prólogo de Seca e Chuva, uma obra criada após o regresso da coreógrafa ao Vietname e as suas longas viagens por aldeias remotas do país é, sem dúvida, um regresso às raízes. A artista inspirou-se nas experiências de vida e nas histórias dos sobreviventes da Guerra do Vietname. No início do espectáculo, as dançarinas seguram nas mãos figuras recortadas em cartão, de tamanho real, que imediatamente provocam um forte impacto visual e emocional pela representação simultânea de vivos e mortos. Estórias são recontadas no palco através da dança e do canto por bailarinas que são, na realidade, vulgares aldeãs que compartilham as mesmas memórias da guerra. Embora não se vislumbrem técnicas de dança profissionais neste trabalho, uma força de coesão e intensidade perpassa cada movimento que as mulheres fazem. Com passos lentos e rápidos, para a frente ou para trás, as mulheres andam e deslizam no espaço, por vezes em grupo, outras aos pares ou simplesmente sós. A comunidade e o indivíduo. O passado e o presente. A guerra e a liberdade. Sola cria, assim, um espaço de diálogo no qual se estende uma história viva, tão real que é possível vislumbrar a própria vida nos olhares e na respiração das intérpretes.

O toque artístico de Sola confere uma beleza sagrada à pureza e à rusticidade das camponesas. Quando estas se escondem nos seus chapéus de palha brancos e nos seus impermeáveis, deixando à vista apenas os pequenos movimentos dos seus pés, sem acompanhamento musical ou sonoro, podemos visualizar, literal e simbolicamente, a chuva que cai e o renascimento da vida após a seca rigorosa. É o corpo humano que cria a (ilusão da) chuva e transmite, ao mesmo tempo, o seu significado. A peça está, aliás, repleta de símbolos. Uma enorme marioneta manipulada por uma jovem mulher enquanto dança pode, por exemplo, representar uma alma perdida, uma sombra que se movimenta, um pássaro engaiolado ou a dupla identidade de uma nova geração. Seguir ou deixar ir? Um fardo para carregar ou uma esperança demasiado pesada? Na obra de Sola, os símbolos são polivalentes. Trata-se de um poema pastoral acentuado com uma brutalidade realista. Enquanto as anciãs se movimentam imitando animais (inspiradas na dança tradicional vietnamita) recriam, ao mesmo tempo, gestos de segurar uma arma (adaptados da realidade). Apenas uma ténue linha separa a Mãe Natureza do campo de batalha. Nesta linha caminham inúmeras pessoas anónimas, outrora soterradas pela história mas agora regressadas e acompanhadas de familiares, compatriotas e de todos os que ainda recordam uma longa viagem por tempos difíceis, pela Seca e Chuva.

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